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Sertanejo, funk e Tropicália: as raízes sonoras que fazem o Brasil pulsar

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Sertanejo, funk e Tropicália: as raízes sonoras que fazem o Brasil pulsar

Photo: Tet, CC0, via Wikimedia Commons

Tem uma coisa que o brasileiro sabe fazer melhor do que qualquer outro povo: pegar influências de todo canto do mundo, misturar com o que é seu de verdade, e criar algo que não existia antes. A música brasileira é a prova mais sonora disso. Ela não imita — ela absorve, transforma e devolve ao mundo com um sabor que ninguém mais consegue reproduzir.

A viola e o coração: de onde vem o sertanejo

Antes de virar o gênero mais tocado nas rádios brasileiras, o sertanejo era viola, era moda de viola, era choro de homem que não podia chorar. Era a música dos trabalhadores rurais do interior de São Paulo, de Minas, de Goiás — gente que carregava na voz a poeira do cerrado e a saudade da roça.

Duo Chitãozinho & Xororó, Milionário & José Rico, Leandro & Leonardo — essas duplas não eram só artistas. Eram porta-vozes de uma cultura que o Brasil urbano tentava ignorar mas não conseguia apagar. Quando os caminhoneiros colocavam a fita cassete no toca-fitas, quando as festas juninas tomavam as cidades, o sertanejo provava que a raiz não se arranca fácil.

O que aconteceu depois dos anos 2000, com o chamado 'sertanejo universitário', divide opiniões até hoje. Bandas como Luan Santana, Gusttavo Lima e — mais recentemente — Marília Mendonça e Maiara & Maraisa eletrificaram a viola, aceleraram o BPM e levaram o gênero para as baladas e os aplicativos de streaming. Perdeu alguma coisa? Talvez. Ganhou alcance, visibilidade, e uma nova geração de fãs? Com certeza.

E a Marília Mendonça merece um parágrafo próprio. Ela não só reinventou o sertanejo — ela o feminizou. Transformou a dor de amor que antes era cantada do ponto de vista masculino em algo que mulheres em todo o Brasil reconheciam como seu. Isso não é pouca coisa. Isso é revolução cultural com violão na mão.

O funk que o Brasil tentou calar — e não conseguiu

Se tem um gênero que representa a resistência cultural brasileira de forma mais visceral, é o funk. Nascido nos bailes suburbanos do Rio de Janeiro nos anos 1980, inspirado no Miami bass e no hip-hop americano, o funk foi desde o início a música de quem não tinha espaço nas playlists da classe média.

E exatamente por isso foi perseguido, criminalizado, proibido. Houve leis municipais tentando banir os bailes funk. Houve décadas de cobertura jornalística que associava o gênero exclusivamente à violência, ignorando completamente a comunidade, a arte e a alegria que existia ali.

Mas o funk não morreu. O funk cresceu.

MC Marcinho, Deize Tigrona, Bonde do Tigrão — cada geração produziu seus ícones. E quando Anitta levou 'Vai Malandra' para as paradas internacionais, quando Ludmilla começou a lotar shows na Europa, quando o funk carioca apareceu nas produções da Netflix e nas playlists do Spotify global, ficou claro que o que o establishment tentou sufocar era exatamente o que o mundo queria ouvir.

Hoje, o funk dialoga com o afrobeats nigeriano, com o reggaeton colombiano, com o drill de Londres. Os produtores brasileiros — muitos deles jovens de periferias que aprenderam a fazer batida no celular — estão sendo chamados para colaborar com artistas internacionais. O baile chegou ao mundo, e o mundo está dançando.

A Tropicália nunca foi só sobre os anos 1960

Falar de música brasileira sem falar de Tropicália é como falar de cinema sem mencionar a câmera. O movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1967 e 1968 foi muito mais do que uma vanguarda musical — foi uma declaração de que o Brasil não precisava escolher entre sua tradição e a modernidade. Podia ter as duas ao mesmo tempo.

Misturar Beatles com baião, guitarra elétrica com berimbau, poesia concreta com gíria de rua — isso era subversivo num Brasil que vivia sob ditadura militar. A Tropicália foi censurada, seus criadores foram exilados, mas suas ideias sobreviveram e se espalharam como raízes invisíveis por toda a música brasileira que veio depois.

A herança tropicalista está no Criolo quando ele mistura samba com rap e poesia. Está na Liniker quando ela une soul com MPB e dança afro-brasileira. Está no BaianaSystem quando faz um trio elétrico virar palco de eletrônica experimental. A ideia de que a mistura é a identidade — essa ideia não envelheceu. Ela se tornou mais verdadeira com o tempo.

A fusão como método, não como exceção

O que une o sertanejo universitário, o funk carioca e a herança tropicalista é algo que vai além do som: é uma atitude diante da cultura. O brasileiro não tem medo de misturar. Não sente que precisa proteger a tradição isolando-a do presente. Ele pega o que é seu, pega o que chegou de fora, e faz uma terceira coisa que não é nem um nem outro.

Isso tem nome técnico na musicologia — hibridismo cultural. Mas na prática é só o jeito brasileiro de ser. É o mesmo impulso que criou o pagode depois do samba, que criou o axé depois do frevo, que criou o forró eletrônico depois do baião. A árvore cresce, mas a raiz não abandona a terra.

E quando artistas como Iza, Johnny Hooker, Luísa Sonza ou Gloria Groove aparecem nas plataformas internacionais com milhões de streams, eles não estão deixando o Brasil para trás — eles estão levando o Brasil junto, embutido em cada nota, em cada batida, em cada inflexão de voz que só faz sentido se você cresceu aqui.

O que vem por aí

A música brasileira está num momento de expansão sem precedentes. O streaming democratizou o acesso e a distribuição — um produtor de funk do Complexo do Alemão e um artista de sertanejo de Uberlândia têm hoje as mesmas ferramentas que uma grande gravadora tinha há vinte anos.

Isso significa que a próxima grande onda já está sendo criada agora, em algum quarto de fundo de quintal, num celular com microfone barato, por alguém que ainda não tem nome mas que vai definir o som dos próximos anos.

O Brasil sempre soube dançar. A questão é que agora o mundo inteiro quer aprender os passos.

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