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Do horário nobre ao algoritmo: a virada definitiva do audiovisual brasileiro

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Do horário nobre ao algoritmo: a virada definitiva do audiovisual brasileiro

Photo: Jimmy Baikovicius from Montevideo, Uruguay, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Tinha uma época em que o Brasil inteiro parava às oito da noite. Não importava o bairro, a classe social ou o estado — a novela das oito era o denominador comum de um país continental. Hoje, esse ritual ainda existe, mas dividido, fragmentado, espalhado por telas de todos os tamanhos. E quem capitaneou essa fragmentação foi uma combinação de plataformas internacionais, produtoras nacionais ousadas e um público que simplesmente parou de esperar a grade de programação mandar nele.

A transformação não aconteceu da noite pro dia. Foi um processo que se acelerou com a popularização do smartphone, ganhou força com a chegada da Netflix ao Brasil em 2011 e explodiu de vez durante a pandemia, quando ficar em casa virou obrigação e maratonar série virou sobrevivência emocional.

O que a TV aberta perdeu (e por quê)

Não é que a Globo, o SBT ou a Record tenham ficado parados. Mas existe uma diferença brutal entre adaptar e inovar. Durante anos, as grandes emissoras apostaram em formatos que já funcionavam: novela, reality show, telejornal. Fórmulas comprovadas, audiência garantida — ao menos por um tempo.

O problema é que o público, especialmente o mais jovem, começou a exigir outro ritmo. Narrativas mais curtas, personagens mais complexos, representatividade real na frente das câmeras. E aí veio o choque: plataformas como Netflix, Amazon Prime Video e, mais recentemente, o Globoplay — que teve que se reinventar para sobreviver — passaram a oferecer exatamente isso.

Séries como 3%, primeira produção brasileira original da Netflix, viraram referência internacional. Sintonia, Arcanjo Renegado, Bom Dia, Verônica — cada lançamento mostrava que o Brasil tinha história, talento e apetite para conteúdo que não cabia mais em horário comercial.

Produtoras independentes: a nova vanguarda

Mas talvez o movimento mais interessante dessa revolução não venha das gigantes do streaming. Vem das produtoras independentes que, armadas com câmeras mais acessíveis, equipes enxutas e muito conhecimento de plataforma, estão criando conteúdo que rivaliza — e às vezes supera — em impacto cultural o que as grandes redes produzem.

Coletivos audiovisuais do Rio, de São Paulo, de Recife e de Belo Horizonte estão colocando no ar histórias que as emissoras tradicionais nunca teriam coragem de apostar. Personagens negros no centro da narrativa, histórias LGBTQIA+ sem o viés do sofrimento obrigatório, retratos honestos da periferia sem romantização nem criminalização.

Essa produção chega ao público por caminhos variados: YouTube, canais no Twitch, parcerias com streamers menores e até festivais de cinema que migraram parte do seu catálogo para o digital. O resultado é um ecossistema audiovisual mais diverso do que o Brasil jamais teve.

Os números que não mentem

De acordo com pesquisas de comportamento digital realizadas nos últimos anos, o tempo médio que o brasileiro passa em plataformas de streaming já ultrapassa o tempo dedicado à TV aberta entre a faixa dos 18 aos 34 anos. Esse dado, que parecia impossível há uma década, hoje é quase banal.

E o mercado publicitário, sempre o termômetro mais honesto dessas mudanças, já sentiu o tremor. Marcas que antes concentravam seus investimentos no horário nobre da televisão agora dividem — ou até redirecionam — verba para campanhas em plataformas digitais, séries patrocinadas e branded content integrado a produções independentes.

Isso criou um ciclo virtuoso para quem está do lado certo da curva: mais verba publicitária significa mais produção, que significa mais audiência, que atrai mais verba. As emissoras tradicionais precisam correr para entrar nessa roda — ou correm o risco de ficarem de fora dela.

O Globoplay e a tentativa de reconquista

Não seria justo falar dessa virada sem mencionar que as próprias emissoras não ficaram inertes. A Globo, maior rede de televisão do país, investiu pesado no Globoplay e passou a produzir conteúdo exclusivo para a plataforma — inclusive com linguagem, temáticas e formatos que jamais apareceriam no canal aberto.

Séries como Malhação: Vidas Brasileiras já sinalizavam uma tentativa de modernização. Mas foi com produções exclusivas do streaming que a emissora mostrou que entendeu o recado. Ainda assim, o desafio é imenso: competir com Netflix e Amazon em orçamento é uma batalha, e competir com produtoras independentes em autenticidade é outra completamente diferente.

O que vem por aí

A próxima fronteira do audiovisual brasileiro está sendo desenhada agora, em salas de reunião de startups, em grupos de WhatsApp de roteiristas periféricos e nos algoritmos das plataformas que ainda estão aprendendo o que o público brasileiro quer ver.

A inteligência artificial já começa a aparecer como ferramenta de produção — não para substituir criadores, mas para viabilizar projetos que antes seriam inviáveis financeiramente. Efeitos visuais, dublagem, legendagem automatizada: tudo isso reduz barreiras de entrada e abre espaço para ainda mais vozes.

O Brasil sempre teve histórias para contar. O que mudou é que agora existem mais caminhos para contá-las — e o público, mais exigente e mais conectado do que nunca, está pronto para assistir. O horário nobre não acabou. Ele só deixou de ter hora marcada.

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