Passarela com sotaque: como o Brasil virou obsessão das grandes grifes mundiais
Photo: David Shankbone, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
Tem algo acontecendo nas vitrines do mundo que qualquer brasileiro reconhece de imediato: o Brasil está em todo lugar. Não o Brasil genérico das cartelas de turismo — não é só praia e carnaval. É o Brasil complexo, cheio de camadas, com suas cores berrantes, suas texturas de feira livre, suas referências que misturam o sagrado e o profano com uma naturalidade que o resto do mundo ainda tenta entender.
E esse Brasil, de repente, virou moda. Literalmente.
O momento em que o mundo olhou para cá
Não dá pra marcar uma data exata, mas quem acompanha o circuito fashion sabe que a virada começou a ganhar velocidade lá por 2019, 2020 — e explodiu de vez no pós-pandemia. Grifes como Valentino, Stella McCartney e até a Balenciaga começaram a incorporar referências que qualquer morador de São Paulo ou Salvador identificaria na hora: paletas de cor que remetem às casas pintadas dos morros, bordados que imitam o artesanato do Nordeste, estampas que dialogam com o universo do candomblé e da umbanda.
Celebridades como Beyoncé, Dua Lipa e Lizzo apareceram em peças que, direta ou indiretamente, bebem nessa fonte. Rihanna, que já tem uma relação antiga com a cultura brasileira — ela própria já declarou amor ao funk e ao carnaval —, foi fotografada mais de uma vez com looks que teriam saído direto de uma passarela da São Paulo Fashion Week.
O problema? Boa parte desse crédito não chegou até os criadores originais.
Inspiração ou pilhagem?
A designer carioca Renata Buzzo, que há quinze anos trabalha com moda afro-brasileira e tem sua marca consolidada no Rio, é direta: "Quando uma grife europeia lança uma coleção 'inspirada no Brasil' e não cita nenhum artista brasileiro, nenhum coletivo, nenhuma referência real, isso tem um nome. E não é homenagem."
Essa tensão entre celebração e apropriação é velha conhecida de quem trabalha com moda periférica no Brasil. A estética que o mundo chama de "favela chic" — expressão que, por si só, já é problemática — foi durante décadas desvalorizada dentro do próprio país. O mesmo estilo que era motivo de vergonha para uma parcela da população tornou-se, de repente, objeto de desejo de compradores em Milão e Tóquio.
"É uma inversão absurda", diz o estilista pernambucano Thiago Araripe, que mistura referências do forró, do maracatu e da moda praia em suas criações. "O Brasil sempre teve uma identidade visual poderosa. A novidade é que o mundo resolveu prestar atenção. Mas a pergunta é: quem vai lucrar com isso?"
Os brasileiros que estão ditando as regras
A boa notícia é que, no meio dessa disputa, uma geração de designers brasileiros decidiu não esperar reconhecimento externo para se impor. Nomes como Lenny Niemeyer, Osklen e, mais recentemente, coletivos como o Afropunk Fashion e marcas indie que nasceram no Instagram, estão construindo narrativas próprias — e vendendo muito bem.
A Brajuu conversou com Camila Andrade, fundadora da marca Terreiro Couture, que une referências das religiões de matriz africana com corte contemporâneo. Segundo ela, o segredo está em não pedir licença: "A gente não espera a Europa validar o que a gente faz. A gente cria, lança, e quando eles chegam atrás, já temos história, identidade e comunidade. É difícil copiar algo que tem raiz."
Essa postura está mudando a conversa. Cada vez mais, compradores internacionais buscam marcas brasileiras originais — não versões europeias de uma estética brasileira. O mercado de moda sustentável também favorece esse movimento: artesãs do Ceará, bordadeiras de Minas Gerais e tecelãs do Amazonas passaram a ter visibilidade global graças a plataformas digitais e ao interesse crescente por moda com propósito.
Tropical, mas não ingênuo
Há um equívoco comum quando se fala de estética brasileira na moda: a redução ao tropical. Sim, as flores, os tucanos e as cores vibrantes fazem parte do repertório — mas limitar o Brasil a isso é tão raso quanto definir o Japão só pelo kimono.
O que está acontecendo de mais interessante agora é justamente a desconstrução desse clichê. Designers jovens, muitos deles formados em universidades públicas brasileiras e sem acesso às grandes escolas europeias, estão propondo uma estética que é urbana, política e híbrida. Que mistura o barroco mineiro com o streetwear paulistano. Que coloca referências indígenas ao lado de influências K-pop. Que usa o corpo brasileiro — em toda a sua diversidade — como manifesto.
Isso não é só moda. É identidade em movimento.
O que fica
A invasão da cultura brasileira nas passarelas globais é um fenômeno real, e veio para ficar. Mas o que vai determinar se isso vira legado ou apenas mais uma tendência passageira é a capacidade dos brasileiros de controlarem sua própria narrativa.
Quando o Brasil vira personagem no palco da moda mundial, a questão não é só estética — é sobre quem escreve o roteiro. E cada vez mais, essa caneta está nas mãos de quem sempre soube, melhor do que ninguém, o que significa ser daqui.